domingo, 27 de fevereiro de 2011

Apostas certeiras

Não, não to falando de aposta nos ganhadores da noite. To falando dos Oscar facts, que se repetem a cada ano a ponto de eu colocar minha mão no fogo que acontecerão de novo hoje! Primeiro, Jack Nicholson e
Inseparáveis: Jack, seus óculos e o Oscar
seus óculos escuros. Ele pode estar novo, velho, gordo, magro, careca, cabeludo, recebendo prêmio ou só brindando a plateia com sua simpatia, não interessa, Jack no Oscar é Jack de óculos escuros. O cara curte a vida e não perde a chance de tirar onda até no Kodak Theatre!

Tão certo quanto Jack e seus óculos são os constrangimentos entre ex-casais ultra-famosos. Em Hollywood, todo mundo sai com todo mundo, e duas beldades ficarem caídas por um único bonitão não é coisa rara de acontecer. E quando o circo pega fogo? No tapete vermelho, é claro! Todo ano, encontros indesejados, sorrisos amarelos e sacanagens do canal de transmissão, porque não? Em 2009, Jeniffer Aniston, a Rachel e ex de Brad Pitt apresentou o prêmio de
Tá mal, hein, Brad?
 melhor animação. Nada a ver com Brad ou Angelina, que, mesmo assim, foram insistentemente filmados durante a fala da outra bela! Vergonha alheia? Imagina! Nem a beleza da Angie conseguiu disfarçar o incômodo com a cena, transmitida ao vivo para milhões de pessoas no mundo todo! Pelo menos todo mundo lembrou quem ganhou a batalha pelo galã. 

E já que o assunto é sorriso amarelo, o que dizer das reações dos perdedores? A maior expectativa, tela dividida entre os cinco atores / atrizes concorrentes, palmas e respeito aos adversários. Toda a carreira passando pela cabeça, os momentos difíceis, o suor, a entrega ao papel, os familiares e amigos abandonados por meses enquanto você viajava o mundo gravando e gravando e gravando... Tudo isso pra, no momento tão esperado... ouvir o nome do outro? É um festival de gente querendo mandar o ganhador à m#$%* e sorrindo ao mesmo tempo que, nossa, dá vontade de enfiar a cabeça num buraco por eles. Perder faz parte, gente! E não vem dizendo que sabia, que o outro merecia mais que todos... não adianta, a frustração tá na cara, muito mal disfarçada! Não tem atuação que engane o público nesses momentos!

Vitoriosas e abandonadas
Michelle Mcgee, a bela
Pra terminar, o que dizer da onda de divórcios pós-Oscar, onde a esposa, toda-poderosa, ganhou o prêmio, os holofotes e o mundo a seus pés? Não tem maridão que aguente, o povo é machista mesmo! Mulher de sucesso + Oscar = mulher traída, esculachada e humilhada publicamente. Nos últimos tempos foi um negócio de abandonar Kate Winslet, Hale Berry e Sandra Bullock que qualquer Natalie Portman deve estar preocupada hoje! Ah, mas algumas trocas são facilmente compreendidas. Ou vai falar que você não deixaria a Sandra Bullock, última vítima da maldição, pela belezoca da Michelle Mcgee?

Existem ainda inúmeras outras certezas a respeito do Oscar. Quem disse que é só pela surpresa de quem serão os vencedores que todo mundo acompanha o evento? A receita é complexa, mas se repete todo ano: mais do mesmo, mais do novo, holofotes nas estrelas e todo o mundo de olho. Que venha a festa e que vençam os melhores!

Audrey & Clint.

Túnel do tempo

A última década trouxe premiados inesperados, confirmações de certezas e consagração de monstros do cinema. Pra entrar mais no clima, vale a pena assistir a um dos premiados como melhor filme da primeira década do milênio, enquanto a festa de 2011 não começa! A lista dos que já entraram pra história:

2001 - 'Gladiador'
2002 - 'Uma mente brilhante'
2003 - 'Chicago'
2004 - 'O senhor dos anéis - o retorno do rei'
2005 - 'Menina de ouro'
2006 - 'Crash'
2007 - 'Os infiltrados'
2008 - 'Onde os fracos não têm vez'
2009 - 'Quem quer ser um milionário?'
2010 - 'Guerra ao terror'

É filme bom pra todos os gostos!

Clint.

O dono da festa

Apresentar o Oscar é uma honra e uma grande responsabilidade pra qualquer pessoa. Mesmo os atores e atrizes mais consagrados devem se sentir acuados diante da plateia, igualmente talentosa, quando a tarefa é conduzir o evento mais importante do cinema mundial. E, alguns anos atrás, Hollywood acertou em cheio ao escalar o carismático Hugh Jackman, o Wolverine, pra dar cabo da missão! Bem humorado, brincou com todos de forma espirituosa, cantou, dançou, fez piada com a crise que assolava a época e deu show! Depois de anos do mesmo humor batido e da mesma lenga lenga, um sopro de originalidade tomou o Kodak Theatre! E Anne Hathaway, uma das anfitriãs da noite de hoje, fez uma ponta de luxo no número inicial daquele ano! Vale a pena conferir:


Desejamos sorte aos apresentadores de hoje, Anne Hathaway e James Franco! Será que veremos um espetáculo desses de novo? É esperar pra ver!

Audrey & Clint.

Roubando a cena

Os discursos do Oscar são uma caixinha de surpresas. Nunca se sabe o que vem pela frente. Discursos quilométricos e enfadonhos, homenagens emocionantes, protestos, assim a história das premiações vem sendo escrita há 82 edições. A maioria cai no esquecimento, mas alguns marcam e ficam na cabeça do fã de cinema por muito tempo!

Louise Fletcher, a enfermeira durona do hospício de 'Um estranho no ninho' (excelente e super-premiado, com Jack Nicholson), emocionou a todos com poucas palavras e muitos gestos. Filha de pais surdos e mudos, ela surpreendeu ao receber o prêmio de melhor atriz em 1976:


Bonito demais! Já Marlon Brando, o Don Corleone de 'O poderoso chefão', usou o momento de glória para protestar contra o massacre de índios em território norte-americano. Pra isso, olha quem ele mandou pra receber o prêmio de melhor ator em seu lugar:


Depois seguiu-se a maior polêmica, era a mulher uma apache de verdade ou uma atriz contratada? Pouco importa, a repercussão pretendida pelo astro já estava posta. Também merece destaque a entrega de um dos poucos Oscar póstumos entregues na história da academia. Heath Ledger arrebatou o mundo com seu Coringa em 'Batman - o cavaleiro das trevas', e recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante após sua morte. A família no palco, lembrando da pequenina Matilda, filha de Ledger, emocionou a todos:



Por fim, o discurso dos sonhos de todo mundo que assiste ao Oscar (e não aguenta mais tanta enrolação já ao fim do primeiro bloco):



Longos ou curtos, hoje é noite de discursos e agradecimentos!

Clint.

ps.: daqui a pouco, as opiniões sobre 'A rede social' e 'Inverno da alma', além de nossos palpites pra hoje!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

E o vencedor é...

Eu curto muito filmes de luta. Boxe, principalmente. Aí vale tudo (sem o trocadilho), não interessa se ficção, se baseado em fatos reais, se documentário. Outro dia assisti a um documentário fenomenal, recomendado por dois amigos meus há quase um ano, quando os dois assistiram juntos mais separados. É isso aí, cada um na sua casa assistiu ao mesmo filme que passava na TV, na mesma hora. Um deles chegou a ligar pro outro pra convidá-lo pra assistirem juntos, tinha certeza de que o outro curtiria. O outro não atendeu o telefone porque estava assistindo e não quis perder um minuto sequer. Não sei porque demorei tanto pra ver, mas finalmente consegui e não me arrependi! ‘Quando éramos reis’ relata a luta histórica entre George Foreman (o dono da mean lean fat grill fabolous machine mais vendida do mundo, aquela, que você tem lá na cozinha) e Muhammad Ali, em pleno Zaire, para mais de 100 mil pessoas no estádio. Recomendei de boca cheia pra outro amigo, que a corrente continue crescendo!
Magrelo em 'O operário'
Mas não to aqui pra falar desse filme (pelo menos não nesse post). O assunto da vez é ‘O vencedor’, filme estrelado por Mark Wahlberg e Christian Bale, olha ele aí! Como dizia, curto filmes de luta, principalmente boxe, e esse aqui também fala de boxe. Também porque esse não é o ponto central do filme, embora de vital importância para a história. Repetindo a filosofia de que filmes de luta são mais filmes de luta na vida do que dentro dos ringues (‘Rocky’ e ‘O lutador’ tão aí pra corroborar), esse aqui conta a trajetória real de um lutador (Micky, vivido por Wahlberg) de segunda tentando chegar ao topo em meio às maluquices de sua família, pressionadora, sufocante. E o foco fica na relação familiar, principalmente com o irmão mais velho, Dicky (Bale), ex vitorioso no boxe e hoje dependente de crack. O mais velho ostenta a façanha de ter nocauteado Sugar Ray Leonard, uma das lendas do boxe. Alguns dizem que Sugar Ray escorregou, mas pouco importa, caiu. E a bola da vez é Micky, o caçula, que tem que repetir o sucesso, mesmo que breve, do irmão nos ringues.
Não gostei do protagonista. Bundão que só ele. Tá certo que é uma história real e que não dava pra fugir muito do que são as coisas de fato na vida dos personagens, afinal de contas eles existem. Mas isso fez um mal danado pro filme. Concordo, a paradeira e passividade do protagonista são úteis no começo, pois sem elas diante da opressão familiar não haveria conflito. Mas, quando acaba e nada muda, dá uma raiva danada. Continuar engolindo aquela mãe absurdamente irritante e a trupe de irmãs encalhadas não dá.
Parrudo nos 'Batman'
O que merece aplausos aqui é a interpretação de Christian Bale. O cara tá muito bem, rouba a cena. Se o personagem que interpreta faz questão de se colocar no centro das atenções o tempo todo, Bale não precisa fazer esforço nenhum para brilhar mais que todo o resto. Eu fico impressionado com a capacidade de mutação desse ator (as fotos não me deixam mentir). Mulheres, isso é que é efeito sanfona!

Esquelético em ‘O operário’, parrudão nos dois ‘Batman’, magrelo outra vez aqui em ‘O vencedor’ e sabe-se lá qual a próxima transformação absurda do cara. E não é só no físico, Bale transforma-se profundamente em cada papel que interpreta. Voz, trejeitos, andar, tudo é muito marcante em seus trabalhos. Haja disposição, raramente se vê tamanha entrega ao trabalho como deste ator. É Daniel Day-Lewis fazendo escola. Se considero Chris Nolan um dos melhores diretores da década, Chris Bale é pra mim um dos melhores atores dos últimos 10 anos. Sorte nossa que eles repetem a parceria em breve (2012) em ‘Batman – The dark knight rises’. E dá pra arriscar que Bale deve levar um Oscar logo, logo (se não levar já este ano).
É mais um filme de superação, de um contra todos, de vitórias sofridas que nos servem de exemplo. Americano adora isso, não é novidade. América, a terra das oportunidades, onde um Zé Ninguém pode ser o herói de amanhã.
Magrelo de novo em 'O vencedor'
Não gostei do protagonista, como já disse. Não gostei também das sequências de luta. Já vi muita luta melhor coreografada. Talvez tenha faltado bater e levar de verdade, como o velho Stallone fez em Rocky Balboa, mesmo sessentão. Gostei mais ou menos do elenco de apoio, tá, a mãe e Amy Adams como a namorada convencem. Mas do que eu gostei de verdade então? De Christian Bale.
No ano passado, não sei porquê, resolveram mudar a charmosa frase ‘e o Oscar vai para...’ pela sem graça ‘e o vencedor é...’, que era usada lá no começa das premiações. Espero que esse ano corrijam a burrada e voltem à forma anterior de anunciar, afinal não se trata de qualquer prêmio. É o que vamos descobrir domingo.
Independentemente disso, sem sombra de dúvidas o vencedor aqui não é o lutador Micky, o protagonista do filme, ou Mark Wahlberg, seu intérprete. O título do filme serve para outro, que apesar de ter pela frente um briga dura com Geoffrey Rush (‘O discurso do rei’) por melhor ator coadjuvante, merece ser dito como tal. O vencedor é Christian Bale.   

Clint.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A origem

Acabei de colocar ‘A origem’ pra rodar aqui. Deve ser a quinta ou sexta vez que assisto ao filme, todas por motivos diferentes. Primeiro, pela novidade, e por gostar de cinema, lógico! Depois, pra curtir mais os detalhes, outra vez pela música, mais outra quando ganhei o blu-ray duplo (incrível) da Audrey, e de novo pra curtir o visual em full-hd...
Cada vez percebi coisas diferentes, tive sensações diversas, experiências únicas. E tudo converge pra mesma conclusão lá da primeira vez, quando as luzes do cinema se acenderam e a sala (lotada nesse dia) se levantou com os olhos arregalados, amigos, irmãos, namorados, se entreolhando e procurando por onde começar a falar daquela...maravilha! Esse filme é fantástico, demais.
É incrível como Christopher Nolan, o diretor e roteirista, conseguiu fazer um filme tão complexo e, ao mesmo tempo, divertido, ágil, recheado de estrelas na ponta dos cascos e acessível ao grande público. Tem um movimento bobo correndo pela internet que condena as últimas obras de Nolan, incluindo ‘A origem’. E justifico o meu ‘bobo’: tem gente que não admite que um cara que começou no cinema alternativo, experimentando a partir de boas ideias, sem muitos recursos e em estúdios independentes, se tornar, em meia década, O cara do cinema contemporâneo. São egoístas culturais, que parecem só gostar do artista enquanto ele está no circuito alternativo, desconhecido, dentro do ‘seu’ mundo, à margem do mainstream. Tá certo que muito artista por aí se vende, por dinheiro ou fama, e embarca em projetos puramente comerciais. Mas esse, definitivamente, não é o caso de Nolan. Puristas, não condenem o cara só por que ele conseguiu juntar cinemão com cérebro, pipoca com reflexão. Tem coisa melhor do que isso?
Nolan, pra mim, foi impecável, um maestro irretocável. Não olho pro filme como um estudo de psicanálise, pela ótica da física, da química ou de qualquer ciência. Talvez nesses campos existam alguns errinhos aqui e ali na obra, como andam dizendo por aí. Olho pro filme como fã de cinema, como amante de umas boas horas na sala escura olhando pra tela e curtindo com uma boa companhia. E, nesse quesito, o cara é O cara mesmo.
‘A origem’ não subestima a inteligência do espectador, nem complica demais a ponto de deixar a dúvida na cabeça: ‘será que sou burro?’. Aqui tem equilíbrio, tudo é na medida, estimulante e recompensador.
Não dá pra deixar de falar da escolha do elenco, pra lá de competente e cativante. Liderados por DiCaprio, que é um de meus atores favoritos, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Marion Cotillard, Ken Watanabe, Ellen Page, Michael Caine e Cillian Murphy dão show.
DiCaprio está incrível. Um filme desse porte sem um bom protagonista não se sustentaria tão bem. Ele é seguro, intenso, profundo e magnético, como poucos astros de Hollywood sabem ser. Uma carreira de início meteórico, de rei do mundo nas telas ele passou a rei do mundo real: o que DiCaprio toca não se transforma apenas em ouro, mas também em arte. Do jeitinho que Nolan gosta: qualidade com repercussão, filme de verdade que sabe fazer barulho. O binômio sucesso comercial – sucesso intelectual não seria possível sem a maior estrela do filme.
Gordon-Levitt e Tom Hardy, da trupe dos ladrões de sonhos, rodeiam o protagonista Cobb e causam no espectador aquela vontade de ser o personagem que representam. Quem não quis ser o falsificador e enxergar no espelho outra pessoa, peça-chave no plano mirabolante da trama? E quem não daria um sonho pra passar uma noite na pele de Gordon-Levitt e salvar o dia pelos corredores, quartos e elevadores de um hotel em rotação?
Acabei de chegar na cena dos primeiros projetos da arquiteta, Ellen Page. É aqui que tudo começa a fazer mais sentido, e Nolan nos coloca no lugar da moça, como aprendizes de um mundo até então desconhecido, que começa a parecer real. Simples mas eficiente a sacada de colocar alguém na trupe que não sabe nada sobre essa loucura de sonhos e inserções. Vamos com ela, aprendemos com ela e logo tudo na história soa natural, já conhecido. Como num sonho, em que não sabemos como fomos parar ali, mas tudo, mesmo que virado de ponta cabeça, parece no seu devido lugar.
Ken Watanabe e Michael Caine, acostumados a marcar presença em filmes de grande porte, são discretos mas, como sempre, conferem charme e elegância ao conjunto da obra. Cillian Murphy, o excelente espantalho de ‘Batman begins’, acumula mais pontos na carreira na pele do filho inseguro que cede seus sonhos como palco de toda a história. E Marion Cotillard...as lágrimas pulam do olho dessa mulher, é absurda a intensidade de cada cena em que ela aparece. Marion transborda como as lágrimas em seus olhos, parece quase não caber na cena (no bom sentido). Ela sobra, dá show, enlouquece o viúvo Cobb e você junto. A doçura mergulhada na raiva, no mistério do olhar perdido no limbo, literalmente.

Fico pensando de que idéia surgiu toda essa rede complexa de personagens, cenas, níveis de sonho, chutes e demais maluquices que dão corpo ao filme. E o mais impressionante é chegar à conclusão, assistindo à cena em que o falsificador é apresentado ao público, de que tudo só pode ter começado como ele descreve: “você precisa da versão mais simples da idéia, pra ela crescer na mente do sujeito. É uma arte sutil.” Uma idéia simples, uma arte sutil e Nolan transformou tudo em um enorme estrondo.

A cooptação da equipe é uma das partes mais gostosas do filme, sem dúvidas. Além de te familiarizar com a história dos sonhos compartilhados (já pensou que legal?) e inserções, te deixa íntimo dos personagens e apresenta alguns dos efeitos visuais mais impressionantes: a cidade que se dobra, a banca de frutas que se estilhaça, o espelho infinito, a escada que só sobe e sobe... Não tem como não adorar cada pequeno detalhe desse filme! Os diálogos que permeiam a fascinação visual são, além de disfarçadamente didáticos (quando a história assim exige), espertos e com fortes traços de humor e ironia, sobretudo no que depender da relação entre o falsificador e o braço direito de Cobb, vivido por Gordon-Levitt.

Diante de uma equipe escolhida a dedo e bem preparada, um desafio à altura: uma mente, três níveis de sonho, chutes sincronizados e a idéia a ser plantada. Os devaneios de Cobb apimentam a jornada (dá-lhe Marion!) e as dificuldades só crescem na medida em que os sonhadores penetram mais fundo no subconsciente da vítima do plano. Daí nos deparamos com um espetáculo de fotografia. A mistura de climas, cenários e arquiteturas são fruto da mente criativa da pequena arquiteta vivida por Ellen Page, que projeta o caminho ideal para que o objetivo da coisa seja atingido. Chuva, neve, praia, cidade, armazém, ponte, van. Como pode tanta coisa diferente misturar-se com tamanha harmonia e encaixar-se na cabeça do espectador com tamanha naturalidade?
Se os sonhos são coletivos, os propósitos são os mais variados e egoístas, sem, contudo, desestabilizar o grupo, apesar do estremecimento inicial ainda no primeiro nível de sonho. Redenção, reencontro, dinheiro, diversão, aventura, poder. As motivações diversas trazem todos para o subconsciente de uma única pessoa.


No caso de Cobb, a frase mais icônica do filme define, pra mim, a força motriz do personagem. Não há parasita mais resiliente do que uma idéia. Foi uma idéia que tornou-se obsessão para Cobb e o levou ao limbo com sua mulher, onde ela perdeu sua sanidade e também sua vida. A idéia de ser dono do próprio mundo, criador de tudo o que há. Foi uma idéia que tornou-se obsessão para Cobb e o fez embarcar na aventura do filme. A idéia de retomar o que de mais precioso lhe restou, seus filhos, sua vida livre. As idéias, sempre elas, movem todos os passos de Cobb e, porque não, de todos os demais personagens. E da platéia. E de quem somos fora do cinema.

Cheguei às cenas do hotel, cara, que cenas! Logo que ganhei o blu-ray duplo (valeu de novo, Audrey!) fui correndo prum modo chamado ‘extraction mode’, no disco 1 do filme, mesmo. A cada cena mais complexa, uma interrupção com explicações dos mecanismos de filmagem e de utilização de efeitos visuais de computador na obra. E pra quem não sabe vou logo avisando: pro tamanho do filme e pelo número de cenas visualmente impressionantes, a quantidade de efeitos de computador é mínima!

É o estilo Nolan de filmar: grandioso mas na raça, na unha, no muque. Lembra do ‘Batman – O cavaleiro das trevas’? Pois bem, aquele caminhão do Coringa capotou de verdade e aquele hospital do Duas Caras explodiu de verdade (é, eles implodiram um prédio em tamanho real..sossegado)! Aqui, em ‘A origem’, não é diferente. O corredor, isso mesmo, o corredor gira pra valer! Mas e os cabos que prendem os personagens? Que cabos o que, os caras correram de verdade naquilo, feito hâmsters naquelas rodinhas infinitas! Chão, parede, teto, parede, chão, parede, teto... mais impressionante ainda, coreografando uma luta! Se teve dublê? Nada... Joseph Gordon-Levitt mandou muito bem!

Ah, mas aquela avalanche na neve (acabei de chegar às cenas desse nível) foi de mentira certo? Computação gráfica, ou pelo menos maquete com mini-explosão? Não. Se Cobb bancou Deus no limbo com sua esposa, Nolan brincou de Deus nessa cena: avalanche de verdade, causada por explosões calculadas, controlada (e existe avalanche controlada?) pela equipe de efeitos visuais de campo. Quando ele resolve fazer uma coisa...é pra valer.

E tudo embalado por uma trilha sonora de primeira. Hans Zimmer, compositor, repete a parceria com Nolan (são dele também as trilhas de 'Batman begins' e 'O cavaleiro das trevas', dá uma olhada na obra completa e impressionante do cara aqui: http://www.imdb.com/name/nm0001877/). Eu curto muito música de cinema, compro quando posso e baixo quando consigo (anta). E essa, pra minha surpresa, veio de lambuja no blu-ray (de novo?) que ganhei da parceira aqui do blog! Pois é, a tela fica preta, e as faixas se sucedem hipnotizando os ouvidos. Batidas fortes, sons metálicos, numa crescente que faz a cabeça ir longe e desperta ao mesmo tempo. Não sei o que gosto mais numa trilha, se é a capacidade de ser notada ou de passar despercebida. Cada qual com a sua qualidade, de acordo com o filme que embala e as sensações que passa ao espectador. Aqui, nitidamente, a trilha marca e a platéia sai da sala de cinema com o impacto que ela confere a momentos como a queda da van. Expectativa, tensão, respiração presa, lembrando muito as músicas das aparições do Coringa de Ledger no último Batman (lembra daquele zunido, iiiiiiiiiiIIIIIIIIIIIIIIII, numa crescente infinita?). Sem falar nas combinações com músicas de Edith Piaf, que me fizeram lembrar do filmaço em que Marion Cotillard arrasa com sua atuação impecável! Vale a pena assistir este também (‘Piaf – Um hino ao amor / 2007).
Tá chegando no final, aquela sensação estranha quando o sonho acaba e tudo volta à normalidade entre os personagens. Os olhares durante o desembarque são de satisfação e alívio. E porque não de estranhamento, diante dum mundo normal demais? As maluquices da dimensão dos sonhos amorteceram tanto os sonhadores quanto os espectadores, agora não parece mais ser tão difícil se perder entre a realidade e o mundo do subconsciente, como outrora fizeram Cobb e sua falecida esposa.
O pião sobre a mesa, o amuleto que faz separar o real do sonho.
Sobre as chances do filme no Oscar de domingo? Por mim, levaria tudo e mais um pouco. Gostei mesmo, já deu pra perceber né? Mas, pelo andar das coisas, se os rumores se confirmarem, deve ficar mesmo é com prêmios mais técnicos, como de efeitos visuais, som e direção de arte. Melhor filme? Se dependesse da minha torcida (e de muita gente) sim, mas tem poucas chances de desbancar o do Facebook e o do Rei. E já que Nolan não foi indicado a melhor diretor (pra mim, a injustiça desse Oscar), que vença na categoria de melhor roteiro original! Vamos combinar, escrever uma maluquice divertida como essa e dar sentido a ela é um trabalho de gênio!
O pião gira, gira, gira...até quando?

Não é que, no subconsciente, todos que curtem cinema têm um sonho compartilhado de ver na tela o que se vê em ‘A origem’? Logo se percebe, essa idéia não é tão maluca quanto parece...
E mais uma vez assisti “A origem” de cabo a rabo, quase sem perceber a passagem do tempo, aqui, compartilhando as experiências apreendidas pelos meus sentidos com vocês. Como disse certa vez o mestre do suspense (e da comédia, porque não?) Alfred Hitchcock, todo filme deve ser pensado levando em consideração a bexiga humana. Não pode durar mais do que um intervalo entre um ida no banheiro e a vontade de ir de novo. Até nisso Nolan acertou. Tá me dando vontade, se me dão licença!
Clint.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O meu TOP 5 de bangue-bangue

Falar em 'Bravura indômita' me trouxe a lembrança dos faroestes que mais gosto, alguns vistos há muito tempo, outros recém assistidos. Pensei em que posição dum suposto ranking pessoal eu encaixaria o filme dos irmãos Coen, e cheguei à conclusão (não muito difícil) de que não estaria nem entre os dez primeiros westerns de minha preferência. Aproveitando, resolvi fazer o meu TOP 5 do gênero, sem pretensões, como toda lista deve ser. Quem já assitiu a todos ou alguns com certeza pode discordar, e quem não viu nenhum, comece já! É um gênero muito mais eclético do que parece e um ou outro deve te agradar! Espero que os trailers encorajem mais!

5- Empate entre 'Por um punhado de dólares' e 'Por uns dólares a mais'. Junto com 'Três homens em conflito', formam a trilogia do homem sem nome, ou trilogia dos dólares como preferem alguns. Dirigidos por Sergio Leone e estrelados por mim (Eastwood, Clint Eastwood), deram início a um movimento de reinvenção do faroeste americano. Chega de apaches, expansionismo territorial e heróis redneck. Surgia o 'spaghetti western' já citado no post anterior. Spaghetti? Modo de fazer: pegue um diretor italiano louco por faroeste, acrescente um astro em ascensão (eu), tempere com longas tomadas, paisagens contemplativas, diálogos afiados e duelos que te deixam na ponta da poltrona e dê um toque com uma trilha sonora magistral, via de regra assinada pelo mestre Ennio Morricone. O western nunca mais foi o mesmo. 


4- 'Os indomáveis'. Novo de tudo perto dos demais, com ritmo acelerado e sequências alucinantes. A angústia da espera pelo trem que levará o perigoso criminoso interpretado por Russel Crowe é salpicada por rajadas de tiros e diálogos bem pensados, como é característico do gênero. Christian Bale, o outro astro, faz o bom moço manco que topa uma missão perigosíssima para garantir a propriedade de seu rancho. Esse tem méritos por ser, talvez, o mais universal e acessível de todos dessa lista: salas de cinema lotadas em 2007, não só de marmanjos. Eu mesmo arrastei um grupo grande, dumas 8 pesoas, pra ver o filme (era minha terceira vez). Todos e todas saíram felizes da vida, a novidade para muitos foi prazerosa e recompensadora!


3- 'Os imperdoáveis'. Se Clint (olha eu outra vez!) já havia provado seu talento como grande ator, aqui ele consolida sua carreira como diretor, após alguns passos iniciais meais discretos. Redenção é a palavra que conduz o filme e seus personagens pelas pradarias americanas. Os grunhidos de Clint estão de volta, bem como sua precisão mortífera com armas em punho. História bem amarrada, cenas impactantes e um show de cinema: concorreu a 9 Oscars e saiu com 4 na conta (filme, direção, ator coadjuvante - Gene Hackman - e montagem). 1992 foi o ano, e mais um marco do gênero ficou para a história. Sangrento e escuro, como a consciência de um homem marcado pela morte. E a parceria de Clint e Morgn Freeman começava...


2- 'Era uma vez no oeste'. Sergio Leone outra vez, depois de concluir sua trilogia do homem sem nome. Aqui, outro ícone, Charles Bronson, é o 'gaita', estranho que chega às terras de Claudia Cardinale (linda) causando estranhamento e tumulto, apesar de sua quietude. Como disse o próprio diretor, "é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens do filme têm consciência de que não chegarão vivos ao final". O espectador entra na dança e adquire tal certeza com o passar das cenas, marcantes desde o início espetacular de minutos a fio de silêncio quase absoluto, mosquitos e vento. E o mais impressionante: a certeza, mesmo que de uma coisa indesejada como a morte, acalma, conforma. 'Antes ela do quê a dúvida?' é uma das perguntas que ficam.


1- 'Três homens em conflito'. Carinhosamente cahamado pelos fãs de 'O bom, o mau e o feio' (tradução literal dos nomes em italiano e português), encerra a trilogia já citada na posição 5. Tarantino, fã fervoroso de western, disse uma vez ser este o filme mais bem dirigido de todos os tempos. Humor, drama, tensão psicológica, aventura, bangue-bangue - está tudo lá, mesclado e combinado da melhor forma que se pode imaginar. Mais atuações marcantes (Clint, Lee Van Cleef e Eli Wallach - o bom, o mau e o feio), trama bem contada e a cereja do bolo: a trilha de Morricone, autor de músicas de mais de 400 filmes, denre eles o recente Bastardos Inglórios. Se você gostou deste último,  provavelmente foi embalado pelas músicas desse gênio, mesmo que sem perceber! O duelo (ou seria trielo?) final é de enlouquecer! Olhares penetrantes, medo, suor e incertezas, tudo conduzido pela música 'The ecstasy of gold', a obra-prima de Morricone! Vai sem medo de ser feliz, esse é obrigatório!



Tá aí uma amostra do que o bangue-bangue tem de melhor. Dos clássicos, talvez eu só não tenha dado a devida atenção ao 'Meu ódio será tua herança', pois quando um amigo chamou eu e mais dois pra assistirmos, eu tava mais a fim era de jogar Winning Eleven no Playstation e dar risada. Hora ruim, filme mal assisitido e, talvez, injustiçado...pretendo dar outra chance pra ele (e pra mim!) qualquer dia desses, depois conto minhas impressões e, se for o caso, mudo alguma coisa desse ranking. Por enquanto é isso.

Clint.